sexta-feira, 16 de maio de 2014

O preconceito sob a ótica dos sistemas vivos e da "matrix".

Estava pensando a respeito do preconceito e me desafiei a ver a questão de forma que nunca havia tentado antes, procurando não sucumbir aos estímulos emocionais que me afetam ao pensar neste tema.

É interessante pensar que, dentro do estudo da ecologia podemos reparar que o preconceito pode ser uma estratégia natural de manutenção da vida em um ecossistema, tanto para quem gera preconceito, quanto para quem é alvo dele. Pense numa coral falsa...o próprio mimetismo, se pararmos para pensar é uma estratégia (consciente ou inconsciente) que se baseia no preconceito e que se mostrou efetiva na segurança e manutenção da vida de certas espécies em sistemas naturais. 

Claro, da mesma forma podemos pegar exemplos onde, dependendo do ponto de vista, o preconceito pode ser benéfico ou prejudicial para um indivíduo, como no caso dos leões na savana africana (sim, se você for um espécime macho, é bom ter a juba escura se não dificilmente vc terá um "par" para "compartilhar seu DNA").
Mais interessante ainda é que, dentro de uma perspectiva ecocentrista, é mais fácil se ausentar de seus julgamentos de "bom" ou "ruim" e, desta forma,procurar compreender o porquê de tal expressão comportamental, qual foi o processo que desencadeou esta situação em determinado tempo espaço. 

Se analisarmos as situações relacionadas acima através de recortes, podemos nos condicionar ao clássico julgamento de bom ou ruim mas, se observarmos que cada um destes cenários é um recorte de uma realidade maior, um contexto dentro do tempo espaço, veremos que foram estratégias que se desenvolveram processualmente ao longo de meses, anos, décadas, e que mantiveram o "equilíbrio dinâmico" dentro dos sistemas ecológicos.

É claro, estamos falando de animais com quem não conseguímos estabelecer uma comunicação efetiva, mas sabemos que foram processos construídos ao redor de uma "paisagem cultural" na qual as espécimes estavam imersas. Dentro deste sistema pode ajudar a manter o equilíbrio do bioma, diferentemente da aplicação deste comportamento nos "biomas sociais" aos quais a nossa espécie está inserida, que acaba causando muitos conflitos e sofrimento por parte daqueles que são vitimas do preconceito. Sabendo do que isto causa, podemos condicionar a propria forma com a qual observamos este comportamento dentro de nossa sociedade.
Porém, apesar destes reflexos que muitas vezes (se não sempre!) nos indignam, precisamos observar que o preconceito como comportamento (sem condicionar a um tipo específico do mesmo), assim como nos demais sistemas naturais, é construído processualmente, através das informações que recebemos do ambiente. Tais informações podem vir através de situações vividas diretamente ou indiretamente, através de histórias, mitos, moda, as diferentes mídias sociais e etc. Da mesma forma, tais mitos e histórias que recebemos foram construídas através de informações recebidas por quem desenvolveu tais mitos. Ou seja, uma informação construída coletivamente e contextualmente, que se torna um estigma que, por sua vez, pode condicionar um comportamento que reforça o próprio estigma e por aí vai, se reforçando ao longo de dias, anos, décadas, séculos e etc.
Compreendendo o preconceito como um comportamento/estratégia construída na evolução dos sistemas vivos, podemos entender que ela se torna um "modus operandi", ou seja, um código que carregamos e que se expressa de maneira inconsciente em determinadas situações. 

Pra quem quer saber mais sobre o assunto da uma olhada no documentário Hierarquia do Augusto de Franco no final do texto!

O que eu quero dizer com isso? Que, sem perceber, podemos estar desencadeando este comportamento em qualquer situação, como neste exato momento, ao ler este texto.
Quantos de nós já fomos "preconceituosos" com determinadas "classes" sociais e nem percebemos?
Atualmente vemos que o preconceito tem se tornado um tema cada vez mais polêmico e discutido, em função da violência moral e física a qual acaba desencadeando.
O preconceito foi um comportamento que desencadeou situações marcantes em nossa história. A inquisição, o holocausto, as diferentes ditaduras e muitos outros, maiores ou menores em questão de número, mas tão sérios quanto.
Vivemos na inquisição a tão conhecida "caça as bruxas" onde, segundo a história, a igreja condenou e matou milhares de pessoas que praticavam ritos "pagãos", ritos e conhecimentos que hoje vemos que foram precursores de tecnologias que usamos diariamente, a industria farmacêutica por exemplo.
Porém hoje vemos que a "caça as bruxas" continua ocorrendo, e não apenas por aquelas culturas que foram as "caçadoras" mas tb pelas culturas que foram vítimas de tal processo. Ou seja, indiferente da cultura ou "roupagem", o "modus operandi" é o mesmo.
De fato precisamos conscientizar as pessoas sobre o preconceito nestas situações específicas, mas acredito também que precisamos começar um processo de conscientização através da própria compreensão de como o preconceito é desencadeado e construído processualmente. Um processo de educação nas escolas, para que as crianças desde cedo comecem a perceber que podem desencadear este comportamento em diferentes situações.
Quando começarmos a ensinar as crianças de que o preconceito é um comportamento que está "embutido" em nossa construção como espécie, podemos fazê-la se tornar mais consciente de quando este padrão se manifesta e rever o pq da manifestação do mesmo, sem também julgar a si mesmo.

Quem sabe, se aplicarmos esta visão da "Biologia" para os sistemas sociais (entendendo que nossa natureza humana não deixa de ser um tipo de natureza animal) e nos ausentarmos de nossos "preconceitos" em cima de quem "é" "preconceituoso", consigamos observar o ato de preconceito de forma mais profunda (compreendendo a dinâmica daquele sistema), desenvolvendo, desta forma, ações mais efetivas no âmbito de conscientizar as pessoas acerca de questões relacionadas a este tema e que afetam tanto nossa sociedade.

Confesso que as vezes tenho medo de escrever certas coisas e ser "linchado" virtualmente, mas sinto que se é um insight, ele tem de ser compartilhado (será q não estou sendo preconceituoso ao pensar nisso, como o animal q tem medo da coral falsa? hehehe).
Da mesma forma, entendendo tb que mapa não é território e, se porventura esta ideia lhe afetar de alguma forma, antes de julgar este post, respire e me chama pra eu explicar melhor a visão e cocriar em cima desta ideia 



Um ótimo e consciente dia a todos!

E como prometido, ta aí o documentário HIERARQUIA, do Augusto de Franco!